A Moça mais Linda

A Poesia era uma moça gordinha e tímida de olhar cabisbaixo.

Ela podia passar maquiagem, colocar a cinta, usar perfume,

não adiantava, não era ela que era chamada para dançar.

 

Na maioria das vezes ela nem aparecia no baile.

Quando ia, geralmente ficava encantuada, quieta.

Isso porque, um tempo antes, já tentara ter espaço no salão perto das outras,

mas desistiu, não porque tivera sido desprezada, mas porque nem tivera sido notada.

 

A Poesia, então, deixou de ir aos bailes por um tempo.

Mas, como era jovem e a inspiração repentina ainda aparecia,

ela voltou a ir, tímida e insistente.

Daí ela aprendeu a se arrumar lindamente, a caprichar nos detalhes

por dentro e por fora.

Tiarava a cinta e a maquiagem, deixava os cabelos rebeldes.

 

Mas, mesmo assim, já ia sem ilusões, direto para os cantos e não esperava nada de nada,

apenas ficava alí parada.

 

Pensava que mesmo sendo assim, era melhor continuar indo do que apenas se trancar numa gaveta.

Ou então nem existir. Porque no fundo sabia do desperdício que isso seria.

 

E era verdade! Dentro de meses e anos, depois de tantos olhares crus, surgia um olhar de flor.

Então tudo fazia sentido. A vantagem disso tudo, de ser a velha e excluída Poesia,

é que no filtro da vida, ela não atraia todos os olhares, mas atraia apenas os olhares certos!

 

Haveria no mundo existência mais significativa do que esta?