A Legião do Lar Abandonado

No nosso lar recém-abandonado continuam fazendo morada:

- chinelos aposentados outrora desbravadores de mundos e que nunca tomaram banho

- gavetas que guardam chaves que trancam portas que escondem os mais herméticos segredos

- velas de meia idade que embalsamaram asas de aleluias

- um guarda-roupa que asila ou sepulta um alinhavado de bexigas murchas e pálidas

- duas taças no terraço com resquícios de vinho, chuva e lembranças de uma noite gozosa

- mofo branco construindo ativo um coelho inteiro na panela de feijão

- batatas-polvo nadando de braçada no fundo da geladeira

- iogurte fresco na garrafa de leite

- uma torneira no banheiro pingando tímida e constante, compondo o ritmo das coisas vivas no silêncio

- 3 saias feministas libertas da linha do varal se manifestando encharcadas na esquina do jardim

- uma população multicultural de gramas verdes crescendo e misturando raças em todo território

- um gato malhado (empalhado?) de rua aninhado no cachecol da avó debaixo da estante

- um vaso com um girassol corcunda e careca ressequido de seiva

- um livro estirado folgadão no meio da cama de casal contando histórias ao vento

- uma trepadeira refulgindo flores inesperadas e ermas no telhado

- uma caixa de vidro embaçado armazenando clandestinamente larvas da dengue e um peixe morto

- um véu de poeira amarelado baixando o tom das cores que ainda teimam em se manter vivas