- Mamãe, como nascem os poemas?

- Mamãe, como nascem os poemas?

- Eles nascem de encontros. Primeiro de uma janela que ficou entreaberta, ou uma fenda na parede, e um sussurro vindo de fora que dispara de uma vez só dentro do quarto segredos de outro mundo. Os segredos nadam, atravessam os ouvidos e um deles, o mais persistente, encontra e trespassa um núcleo redondo de palavras férteis. Então se fundem, segredo e palavras, consagrando o segundo encontro. Nesse momento já não são mais ‘segredo’ e ‘palavas’, agora formam um só ser e o nome dele é amor. O amor ainda é frágil demais, pequeno demais, sem forma ainda para viver no mundo, por isso vai morar e evoluir no coração. Ele chega, deita, calmo e vivo, no côncavo morno e acalentador do coração. E lá cresce, se alimenta dos sentimentos todos, as vezes dorme, as vezes se mexe, as vezes até quer explodir logo, assim antes da hora, é que expande as dimensões da alma. Mas ele tem seu tempo. E assim, passado o período de esperança, o coração pesado e pronto, cheio de amor maduro, irrompe pelas mãos, que delicadas soltam um poema na folha de papel. E nesse momento, se reverencia o encontro de dois mundos.