Café da manhã

Um assobio o chama. Ele vem lento, manso e gordo tomar lugar à mesa. Ainda está sozinho, vê a mulher na cozinha colocando num prato fatias de pão torrado, quentes, saindo da torradeira.

Ela se senta à frente dele e se apressa para passar manteiga nas torradas. Gosta das torradas amaciadas pela manteiga derretida. Trata de dar o mesmo cuidado a todas elas. Talvez este seja um hábito dos tempos da casa da mãe que tinha quatro filhos e se preocupava em mimar os lanches de cada um. Cortava os excessos de frios dos sanduíches, guardava as sobras para fazer patê ou para misturar nos ovos mexidos do dia seguinte.

O mesmo cuidado que tem com sua comida também amorosamente distribuí. É bem generosa. Quando ele, com olhos sedentos, pegou a última banana, ela fez questão de deixa-lo comer mesmo que ele já comera três das quatro que ela havia comprado no dia anterior.

Coloca duas fatias de pão no prato dele e duas no próprio prato.

Na mesa do café da manhã há uma frigideira com tampa, guardando os ovos mexidos dele. Um vidro de geleia, um pote de ketchup e uma caixa de suco de laranja.

Ele joga os ovos no prato, espreme o ketchup por cima de tudo, quase consegue enrubescer todo o amarelo. Descarta a faca do lado do prato e mete as garfadas cheias pra dentro da boca.

Ela sente prazer e orgulho ao observar a voracidade com que ele come. Um orgulho como o da mãe que vê seu bebê sugar sem intervalos os 300 ml de leite da mamadeira. Ou como o da moça que fica feliz ao ver seu filhote de cachorro comer toda aquela pasta mole e ir se tornando uma bola peluda e serelepe.

A moça desta história só tem esse moço para se orgulhar e ele colabora.

No prato dela há um ovo cozido, no ponto, nem muito mole, nem duro. Ela usa garfo e faca para separar a clara da gema, joga um sol rosa do Himalaia, um fio de azeite verde escuro. Come a clara primeiro, sem graça. Rasga pedaços de pão e molha na pasta amarel0-esverdeada. Tem mania de tirar as bordas do pão e deixar de lado na mesa. Só quer o macio das coisas.

Há um risco ao experimentarmos o que é bom de verdade nessa vida: a memória seletiva. Depois de provar a fineza é difícil se contentar com os sabores rudes. Depois que ela foi para Itália nunca mais comeu ovos da mesma maneira.

Ele de boca cheia, captura as bordas dispensadas de pão, mete ketchup e põe pra dentro.

Ela observa calada, sem recriminar, acha graça. ‘Como é que uma pessoa pode ofuscar todos os sabores com ketchup?’ Melhor seria nem se preocupar e servir pão amanhecido. Teria o mesmo gosto.

A mão masculina que segura o copo de suco de laranja tem as carnes em volta das unhas roídas e secas. Algumas machucadas. E unhas quadradas, moldadas pelos dentes.

A toalha de mesa quadriculada de azul e branco tem mancha secas vermelhas e amarelas, mas ainda pode ser usada por alguns dias. É preciso preservar, reaproveitar e economizar.

Ela recolhe com a ponta do dedo indicador as migalhas de pão espalhadas na mesa levando-as à boca. Arrasta as sobras do prato dele para o dela e empilha a louça suja.

Se perde nos pensamentos. Entra na geladeira e vê restos de presunto, meia cebola, molho de tomate aberto, cenouras. O almoço vai ser um macarrão de sobras. É preciso preservar, reaproveitar e economizar. Até mesmo o que já rompeu o prazo de validade.

Segurando a xícara de café com leite com as duas mãos. As mãos são miúdas e delicadas, têm cutículas e faz tempo que não veem uma manicure. Mas as unhas curtas são arredondadas a lixa.

Por um instante ela volta os olhos para ele. A voz dele, mais densa de manhã, estava ali por alguns minutos a se misturar com os pensamentos. Parecem nuvens lentas, cinzas, prestes a precipitar, mas conservam o tom.

Ele pergunta ‘O que você acha?’.

Ela pensa ‘Deus. De que?’. Tenta encontrar alguma imagem na cabeça. Volta os olhos para dentro para realinhar o fio da memória recente. Vê pendurados restos de presunto, cenouras, meia cebola, nuvens cinzas prestes a precipitar…

Respira, não alcança o pacote de guardanapo de papel fechado. Limpa a boca na beirada da toalha já suja. Para ganhar tempo nos pensamentos.

Ele diz ‘Você sempre faz isso! Que nojo! Limpa a boca na toalha!’

Talvez seja um hábito dos tempos da casa da mãe. É preciso preservar, reaproveitar e economizar.

Ufa! As nuvens mudaram de tema! E ela se policia para prestar atenção nesse mundo de cá.