Aproveite Bem seu Intervalo

Ontem li um artigo sobre uma moça norte americana que tem uma doença terminal que está se espalhando de forma rápida e agressiva pelo seu corpo. Ela disse ‘depois de meses de pesquisa, minha família e eu chegamos a dolorosa conclusão: não existe tratamento que possa salvar minha vida e os tratamentos que me foram recomendados destruiriam o tempo que me resta. ’ Então ela decidiu programar a data de sua morte, cuidadosamente escolheu morrer antes que as dores sejam maiores que as coisas boas da vida.

Claro que lendo a história dessa moça pensamos na questão da eutanásia, nos colocamos no lugar dela e tentamos entender o que faríamos nessa hora, nos enchemos de tristeza por nos sentirmos sem esperanças, já que esperança significa futuro, planos, objetivos a serem alcançados, ficamos tristes por não termos em que nos apegar, por já não acreditarmos que um milagre pudesse trazer a cura. Assustados, nos damos conta: o único caminho dessa moça é a morte. Uma morte que pode ser um ponto final de uma vida ainda não cumprida, ainda incompleta.

Mas essa história me fez pensar mais além, além dessas questões e sentimentos. Me coloquei no lugar dela depois da aceitação da morte, me coloquei no lugar dela agora, encarando o pouco tempo de vida que lhe resta. Se eu tivesse um ano de vida, o que eu faria? Quis me aprofundar nesse sentimento, realmente dialogar comigo mesma, e essa não é uma pergunta do tipo: o que eu faria se só me restasse um dia, um único e desesperado dia? Se me restasse um intervalo de vida (pleonasmo = vida é intervalo!) o que eu faria de minha rotina? E o que eu não faria? Se eu realmente tivesse essa consciência de que um dia é muito para ser perdido, o que eu excluiria de meus minutos para salvar meu dia e torna-lo significativo?

Se eu tivesse apenas um ano de vida eu excluiria pessoas, conversas que não servem para nada, nem para dar risadas e me deixar ser eu mesma. Excluiria posturas, sorrisos que não me cabem, maquiagens bloqueando meu choro. Eu tiraria do meu caminho explicações excessivas para mentes e almas ainda não preparadas e abertas. E também me afastaria de pessoas para quem eu significo nada, que não se importam, não tenho tempo para tentar convence-las a me amar ou me notar. Fico com as que já me amam de graça. Eu não perderia meu tempo respondendo mensagens só para preservar imagens e posições em grupos sociais. Eu tiraria dos meus dias o trabalho que não tem significado além do dinheiro, os programas de TV que só servem para ajudar a engolir a insossa comida. E também excluiria essas comidas que só servem para ser engolidas, que por motivo de dieta, falta de dinheiro ou criatividade, são chatas como rações. Então eu traria de volta para minha vida uma comida boa, caseira, bem feita e temperada, arroz, feijoada, porco, bife acebolado, salada, pudim de leite, torresmo, couve, suco de fruta, vinho, champanhe, caipirinha. Eu doaria meu tempo para cozinhar, passaria duas horas no hortifrúti, no supermercado, na loja de orgânicos. Iria até um sítio para comprar milho fresco, tomar leite de vaca, tocar (talvez pela última vez) no coro de um cavalo. Eu visitaria meus amigos, aqueles de verdade sabe, levaria presentes, tomaríamos café com bolo de fubá, contaríamos as fofocas, daríamos risadas. Se eu tivesse filhos, se eles fossem crianças, eu tentaria leva-los comigo aonde quer que eu fosse, a não ser que eu sentisse que eles estariam mais felizes fazendo outras atividades, mas eles estariam comigo e eu com eles. Eu aproveitaria tardes com eles, quando ensolaradas teríamos mil lugares e aventuras para percorrer, quando chuvosas, teríamos muitos brinquedos, aquarelas, argila, filmes e livros para apreciar. Quando cansados, dormiríamos abraçados, embalados pelo bom cheiro um do outro. Se eu tivesse um homem, desses que realmente se importam comigo, eu pediria para ele aproveitar comigo, tanto as brincadeiras como bons jantares e passeios a pé. Se ele insistisse em se manter ocupado, convencido de que apesar de tudo o trabalho e ganhar a vida é mais importante, eu o deixaria ir sozinho e não teria ouvidos para escutar as reclamações que viessem do escritório. Mas eu passaria horas escutando-o se ele quisesse me contar uma história, expressar seu amor, me fazer rir e contar de seus aprendizados ou de suas paixões.

Eu acordaria cedo e dormiria tarde e me sentiria acesa e descansada. Eu mandaria uma carta para o Chico Buarque, ouviria músicas das boas, iria a apresentações de poesia. Eu escreveria. Eu gastaria todo o dinheiro que me resta, não de uma vez, mas com esses mimos diários. Eu doaria minhas roupas para pessoas pobres, eu ficaria apenas com um chinelo, um tênis, um vestido, uma calça, uma camiseta, um casaco e uma mochila. Eu sairia para dançar. Eu plantaria sementes.

Ao final de um ano (dia) eu diria: posso ir em paz, o meu tempo foi rico, a minha vida não foi um poupar hoje para um amanhã promissor.

O único caminho dessa moça norte americana é a morte. Resta a ela um ano de vida.

Qual é o nosso único caminho? Quanto tempo temos? Isso realmente importa?…

Só digo: aproveite bem seu intervalo!