Bernardo e Ana

Ele leviano

Ela entregue

Ele uma noite

Ela uma vida

Ele olhos e mãos

Ela delírios e cheiros

Ele liberdade insossa

Ela apimentada prisão

Ele um gozo

Ela uma história

Ele pingos de realidade

Ela elos de memória

Ele Caeiro

Ela Lispector

Ele oriental, carnal, ritualístico, burocrático, fisiológico, sob controle, moderno

Ela mexicana, drama, cama, mistura, cultura, loucura, ritualística, descontrolada, pós-moderna

Ele linear

Ela curvilínea

Ele conta gotas

Ela oceânica

Ele só agora

Ela presente, passado, futuro

Ele impressão realista

Ela expressão sensível

 

Ela acorda, se cura, esquece, desvencilha, esvazia, seca. Recomeça inteira.

Ele acorda no sonho já acabado, se afeiçoa aos restos, reanima os sentidos com a falta, recolhe os cacos de memória, se apega ao que já não existe, se transforma numa coleção de resíduos de uma doce vida não vivida

 

Ele começa tudo de novo

Ela também, com outro alguém

Ele uma outra noite

Ela uma outra história

Ele o mesmo coração leviano

Ela a mesma entrega insana

Ele o mesmo pela metade, meio longe, meio perto, marxista de direita, meio ausente, meio entregue, meio vivo, meio morto.

Ela mesma dança, uma bruxa, uma vidente, uma lagarta, uma borboleta, uma mulher de um único homem em um momento único e de múltiplas fantasias

Ele só deixa migalhas

Ela é uma padaria